sábado, 30 de agosto de 2014

Questão de tempo

Querido Tim,

Ouvi sua história um tempo atrás, e suas palavras me tocaram de maneira surreal, penetrando na essência do meu ser. Eu me identifiquei com elas.
Confesso que em minha condição atual, estou perdido como você um dia estivera, cercado de pessoas que se importam e me amam, mas a solidão e a inanidade tornaram-se minhas melhores companheiras de viagem. Falta algo, tem um vazio.
Pude ver em seus olhos o anseio de se encontrar e de esbarrar em alguém para amar, um lugar para retornar. Digamos que você é um homem de sorte, a descoberta de um segredo mudara completamente sua vida. Erros do passado foram concertados, barreiras de covardia e inferioridade foram derrubadas. Como eu o invejo! Encontro-me caminhando descalço, com roupas rasgadas e sujas, por num túnel escuro e frio, sem esperança de que, em algum determinado momento, eu tornarei ver a luz.
A monotonia me persegue, e não há curvas, ou um atalho ou trilha de escape nessa jornada sem volta, é sempre a mesma direção. É sempre a mesma dor. O colorido não me agrada mais, na realidade nem me lembro dos tons vivos que enfeitavam meus dias. Agora só restam borrões de cinza e preto. A alegria que irradia de mim não é mais do que algo mascarado, porque é um prazer tão majestoso contemplar o sorriso na face de alguém que qualquer demonstração de abatimento pode ruir todo esse arsenal de felicidade.
Se existe um ponto positivo nessa história? Bom, Tim, contigo aprendi que as más circunstâncias da vida são questões de tempo. Posso estar passando por um período em que o silêncio é uma das maneiras pra curar a dor, só que logo tudo terá findado. Posso não ter uma novidade que mudará minha vida, mas tenho ciência de que eu o devo fazer. Na hora certa, claro. Todos, seres da terra, viajamos no tempo todos os dias de nossas vidas, então cabe a nós então fazer o nosso melhor e aproveitar esse maravilhoso passeio. Esse passeio que um dia hei de encontrar.

Obrigado Tim.

Escrito por: Apenas um Satélite.

Primeira carta: Perdido na imensidão.

Querida Amy,

Me defrontei com a pior ideia possível: a ideia de que não poderei fazê-la feliz. Meu coração está chorando agora por isso. Ele foi completamente quebrado e está jogado no chão junto com as lágrimas que saem, lentamente e de forma totalmente intensa.
Como olhar para a pessoa que você ama e convencer a si mesmo que é hora de partir? Ainda não consegui compreender.
Por que isso tinha que se manifestar logo no meu coração, que até aquele instante estivera congelado? 
As coisas deveriam ser mais fáceis, mas parece que meu lamento se torna cada vez maior. Eu a amo como nunca amei ninguém, e é uma pena que ela não sinta isso por mim também.
Eu realmente não sei o que fazer agora. Estou perdido no imenso nada. Perdido e solitário. Perdido e sem quase nenhuma esperança. Ela virou pó e voou além de onde eu poderia chegar. Não sei se terei forças para alcançar ela novamente.
Eu não sou o suficiente e acho que nunca serei. Acredito que o garoto da cabeça chata deva ser o suficiente. O garoto das mangas dobradas também foi o suficiente. Todos são suficientes menos o desafortunado garoto do coração apaixonado.
Nunca imaginei que iria doer tanto. Nenhuma dor foi tão intensa quanto essa. Imagino a ideia de enfiar a mão e tirar o mal pela raiz e contemplar meu coração batendo por ela. Ah, como dói! Está doendo muito. Muito mesmo.
Agora consigo compreender as suas músicas ou o fato do porque utilizava drogas. Talvez esta dor passe com um pouco de cocaína. E por que se importar com a saúde do corpo se a minha alma está completamente morta?
Que me chamem de louco querida Amy mas você esteve certa e só agora compreendo isso.

De seu mais novo fã,

Rogério

P.S: É assim que eu me sentia no dia 9 de Agosto sem algum motivo aparente.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Desabafo

Querida Vó,

Às vezes, eu penso que talvez com a sua presença eu teria um ombro para chorar sem me explicar - não que eu não tenha pessoas para me ajudar nessas horas, mas sempre achei seu colo o melhor de todos. Todas as suas palavras de conforto, todos os seus mimos. Ah, como eu sinto falta!

Agora penso em como seria passar a adolescência ao seu lado. Você com certeza foi uma das melhores pessoas que entraram na minha vida. Você tornou a minha infância a melhor, mesmo sem muitos recursos, pois era com você que eu passava minhas melhores férias. Obrigada por ter feito tudo por mim. 

Esses dias estava tentando lembrar da última vez que a vi, e chorei, porque realmente não lembro. Acho que me sinto mal por não ter te visitado, mas regras são regras, e no hospital não eram permitidas crianças naquela ala. Minha mãe conta que você queria nos ver nem se fosse pela janela do hospital. Mas talvez tenha acabado assim, e tenha sido o melhor jeito, sem mais dores e sofrimentos. Pode-se dizer que eu ainda choro às vezes, mesmo que em muitos momentos 6 de outubro passe batido. Essa data marcou minha vida, e o que a senhora me ensinou vai ficar comigo pro resto da vida. O melhor exemplo, a bondade, e o verdadeiro amor ao próximo. Talvez o que me tornei agora não iria te alegrar, e às vezes penso no que você iria dizer se me visse assim, mas acho que me confortaria e sempre estaria comigo.
   Eu simplesmente odeio essa doença e o jeito como ela leva as melhores pessoas de repente. 
 

Com muito amor,

 P.S.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sétima carta de um apaixonado

Querida Amy,

Apesar de te confiar alguns dos meus sentimentos mais profundos, eu nunca cheguei a me apresentar para você.
Sempre ouvi as suas belas e inspiradas músicas e admirei seu jeito. Você era uma mulher bem "gostosa" na fase em que não estava envolvida com os vícios, e sua personalidade era incrível. 
Talves eu me interesse tanto por você devido ao seu jeito totalmente contrário ao meu. Você acreditava que deveria viver intensamente, mas isso não te proporcionou muitos anos de vida. Já a minha vida tem como perspectiva a estabilidade e a durabilidade elevada. Não sei até que ponto isto torna a minha existência mais feliz. Talves seu modo de viver seja o melhor, mas infelizmente é o menos aceito por essa sociedade hipócrita. Eu realmente queria experimentar este modo intenso.
Bem, agora preciso falar algumas coisas para você.
Não me reconheço mais. Tantas coisas mudaram na minha personalidade e em minhas ações nos últimos tempos...se meu eu do passado me observasse rapidamente, sei que nunca reconheceria a natureza que cerca o ser inspirado que habita este "velho" corpo conhecido. Quando olho para o meu interior, me pergunto como todo o processo de mudança ocorreu sem que ao menos me deparasse com tudo isso.
Meus planos e sonhos antigos ainda sobrevivem dentro de mim, mas não com tanta intensidade como eram antes. Comecei a dar mais importância a coisas mais simples do que a essas utopias que possuia na minha mente.
Toda essa mudança ocorreu recentemente devido a um amor. O amor realmente muda as pessoas. Sou a prova concreta disso. Comecei a amar e criei novas perspectivas para a minha vida e fiz coisas que jamais faria. Adquiri hábitos um tanto peculiares e me descobri um fã de poemas, principalmente dos magníficos versos de Fernando Pessoa. Comecei a escrever para você devido a alguns pensamentos que me atormentavam.
Esta já é a sétima carta que escrevo, mas a primeira que permito que tenha conhecimento se é que isso é possível. Você saberá um pouco mais sobre mim ao longo das seis cartas anteriores. Agradeço desde já por me escutar.

Com carinho,

"Anônimo"



28 de agosto de 2014, depois das dez.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A primeira carta.

Querido Jim, 

Olá. Sem muitos clichês, acho não deveria me apresentar, porque assim como Charlie, talvez eu não deva dar a eles a chance de saber quem eu sou - não de verdade, é complicado, e você deve saber, essa coisa de imagens é uma bobagem, e algo que pode nos ferir tanto. Mas enfim.
Gostaria de lhe contar como vinha me sentindo triste por esses dias, exatamente como as crises existenciais de um adolescente qualquer, e como eu me proíbo de esquecer que ter 17 anos não é uma tarefa tão fácil. Sei que as coisas aconteciam com alguma explicação, mas eu não conseguia me concentrar em entendê-la, não conseguia buscar pelo lado positivo que existe dentro de tudo, e o motivo eu já nem sei, talvez, mas só talvez, sejam porque algumas coisas não mudam, e as pessoas acabam por nos ferir muito. O fato é que eu não via mais o azul em nenhum sorriso, mas consegui os ver em todos aquela noite. É engraçado como as coisas acontecem, e como eu me recupero a ponto de esquecer instantaneamente como me sentia antes. Você entende? Talvez todos sejamos assim, mas eu prefiro endereçar esse texto a você. Aliás, você os leria? Acho que não, mesmo que pudesse. Acredito que os dragões estão voltando pra casa, e o lar deles sou eu, assim como eles, de certa forma, passam a ser o meu, porque aquele mesmo cheiro já esta no ar, e mesmo que esteja frio lá fora, eu quero ver o dia como as estrelas mais bonitas do céu, e sorrir sem precisar de um motivo, porque ainda acredito que o mundo não seja um lugar diferente. Enfim, acho que é isso. Sou só uma adolescente que não sabe qual das portas deve abrir, que não quer ter que se tornar adulta de um dia para o outro, e que deseja ter esses amigos bem fiéis até o fim, seja qual for ele. Espero que você me entenda, e que também já tenha se sentido feliz e triste ao mesmo tempo, e tenha chego a conclusão de como ser inconstante dessa forma é, no fim, uma dádiva.

Até logo Jim, e com amor, 

O cego do castelo.

(14/08/14 - aproximadamente 12hrs)