terça-feira, 23 de setembro de 2014

Outro lugar

Clarice (Lispector),

Passei muito tempo, dentro destes meus quase dezoito anos, apenas ouvindo rumores a seu respeito. Alguns a entendem, outros nem tanto, e por isso as palavras variam - de elogios a decepções, mas acabei por descobrir em uma tarde, quase noite, em que você foi apresentada a mim verdadeiramente, por meio de algumas páginas velhas de um livro com cheiro de passado, um alguém que me entende, em todos os sentidos que essa única palavra, "entender", pode carregar, ou não, consigo.
No entanto, Clarice, você não é a primeira com esse nome que eu tenho o prazer de “conhecer”. Houve, também, aquela menina com uma historia triste, que apenas queria que o mundo lhe estendesse a mão, que toda aquela paz, toda aquela força, não fossem apenas um sonho, e afinal de contas, quem não espera isso? Mas seu soluço é enlouquecedor, e as lágrimas vão para sempre correr para fora de seus belos olhos, mas eu não a culpo, talvez eles sejam agora o que eu era antes, o que eu queria ser, talvez eu tenha ficado para trás, talvez eles tenham me deixado para trás, tenham me feito ser como qualquer uma destas tantas coisas, que ficam, enquanto o trem vai, e eu apenas observo por essa mesma janela.
E Drummond tinha razão: preferimos dormir a conviver com nossos problemas nesse mundo onde somos todos, de certa forma, um pouco infelizes, e não conseguimos fazer nada para escapar, mesmo sabendo qual é a realidade.
Mas nada disso é o que eles querem que seja dito, o que eles querem escutar. E o que eu posso fazer? Isso é o que se ganha quando se tenta ser você.
E você, Clarice? Como se sentia? Ou melhor, como se sente? Uma vez você fez parecer que a ignorância realmente é uma dádiva, pois o erro das pessoas inteligentes é tão mais grave: elas têm os argumentos que provam.
Todos carregaram dores no coração, segredos e palavras não ditas que sufocam, e me parece que você queria fugir de si mesma, como se soubesse coisas demais, como se estive cheia demais de si, é como não conseguir mudar mesmo estando descontente com o que eu me tornei, e essa dor e essa ansiedade simplesmente não se vão, porque parece que não houve um alguém para quem dar a mão ao me jogar do precipício.
Mas eu estou me dispersando, e quem sabe, nessa de sair da realidade para caminhar em direção à lanterna dos afogados, a qual presumo que eu pertença, eu  o encontre, com todo o alecrim e o hortelã o envolvendo, como o que uma áurea azul cintilante. E por falar do azul - todos eles citam-no agora - e me pergunto se eles o entendem ou ao menos o sentem como eu um dia senti, como naquela noite onde talvez eu pudesse sentir o vento, mas domingos costumam não surpreender.
A vida continua, os instantes são apenas instantes, e talvez eu queira fugir de mim mesma, porque assim estaria pronta pra viver tudo que sempre quis Clarice. Mas sei que o que me levará ao final, serão meus passos no caminho, não perseguirei meu próprio destino, não quero ser o acaso que esperam de mim.
E já fazia tanto tempo, o Sol já tinha partido, e a Lua se escondia no céu, mas, na mesma noite, os sorrisos se encontraram, e mesmo que não se soubesse o que devia ser feito, não se podia dizer o adeus.
Mas eles me fizeram acreditar no amor que não existia, na amizade que nunca fora um laço verdadeiro.  As palavras foram ditas num dia de ventos fortes, que as levaram,  nunca houve um abraço apertado, e ele me disse como quem sabe o que precisamos ouvir, "não se prive de sonhar e voar em busca de sua história”, mas, acho que já construí muros ao meu redor.
Todos os dias os mesmos gritos, as mesmas brigas... As mesmas mentiras, as mesmas façanhas. Desejo fechar meus olhos e nunca mais abri-los, e talvez alguns remédios e um copo de bebida me deixem em paz. Preciso de uma música alta e me dispersar em mim mesma, de mim mesma. Mais do que o normal.
Esta carta já dura três dias, mas, assim como os dela - os da menina que, mesmo que longe o suficiente de mim para fazer que meu coração consiga doer - meus pensamentos são estrelas que não consigo arrumar em constelações, e agora eu consigo ver o céu se abrindo, e o azul se aproximando. Clarice, confesso que ainda estou perdida, mas a garota eternamente infinita por si só mesmo disse: a beleza de tudo é a certeza de nada, e o talvez torna a vida um pouco mais atraente; a inconstância, o feliz e triste, ele sempre esteve certo, e eu sinto tanta sua falta, mas ela tem me ensinado tantas coisas, em pequenas palavras, talvez sem perceber, e agora eu também consigo sentir como tudo vai ficar bem, e eu espero que você também tenha sentido, ou, venha a sentir, nunca é tarde demais.
E que fique claro que eu derramaria quantas lágrimas fossem necessárias, e daria quantos sorrisos precisasse. Eu não queria a soltar, mas agora, sei que devo voltar a voar ao seu lado. Você consegue me entender? Porque eu não faço ideia do que metade disso possa significar, mas tenho a certeza que ainda tenho esses corações, e são o que eu preciso, são o que eu quero.
Agora preciso apenas fechar os olhos, lembrar do sorriso e como sete anos me parecem ontém, lembrar de uma chuva que fez tudo começar, e como eu adoro a primavera que está por vir.
Amanha já é quarta Clarice, e terei que acordar, sem nem ao menos ter dormido, daqui a algumas horas. Não sei quando lhe escreverei novamente, talvez quando tudo desabar novamente, ou quando eu acreditar que seja a subida da montanha-russa.
Aonde quer que esteja, espero que tenha aprendido a conviver com seus vícios, dentro deste infinito verso.

Com amor,


O cego do castelo.


(em algum(ns) dia(s) triste(s), antes das seis)

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